o corpo flutuante

 

O telespectador despersonificado,

jaz como a matéria humana que é.

Poupado do dessabor do perecimento,

transfere aos outros,

as memórias da lucidez.

 

Estes a guardam,

com o apego da esperança.

Contagiada, faço de mim

vítima tal

desta cruel quimera.

 

No balançar da cadeira, estridente,

o corpo se move, absorto.

Ele apenas vê a beleza das cores que dançam,

pleno por não mais entendê-las.

 

 

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Embaço

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Cismo naquele segundo,
Onde o tempo pareceu infinito,
Na lembrança que rebobino,
Embaçada.

Que teu beijo cálido,
Salva da hipotermia,
Esse peito em gelo,
Que por amor tremia.

Fujo da nitidez das emoções,
Torno o copo.
Torno-me.
Mais um gole.

Uma fuga de mim,
Do fracasso em me sentir,
Do receio ao real,
Me prefiro ilusão.

No meu sentimento tácito,
Sou quem prefere poesia
Sobre o inalcançável.

Sobre você, borboletas e exageros.

Você me tocou
Onde alguns temem ser tocados.
Onde se transparece o ser
E onde se planta o será.
Onde a esperança nasce
No dilatar das minhas pupilas
E na minha arritmia tola.
Você se fincou
Onde se oscila,
ao vento suave,
As borboletas que me habitam
Você é meu sopro de humanidade
Que me faz levitar
Entre o mundo real
E o onde-eu-quero-estar.

Você floresce as pequenas incertezas que guardo dentro de mim
E as poucas magoas que ainda não esqueci.
Você é o meu anseio futuro,
O prazer
Do qual hoje ainda me furto.

Você gira meu mundo.
É você quem pulsa nas minhas veias
De segundo em segundo.

Você nunca aconteceu, mas espero que aconteça.

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Você é a perfeição que dilata as pupilas.
Que aquece o peito.
Você é um olhar azul no preto.

Você é o olhar que cruza o meu, que penetra a alma.
É você, unicamente, que me arranca a calma.
Você me faz existir.
É você quem me prende as noites
E não me deixar ir.

Você nunca esteve aqui.
Nem nunca vai estar.

Você me faz artista.
É minha doce distorção da realidade.
É o sentimento que morreu em mim.
A luz que entra pela janela e anuncia o fim.

Eu te criei
Dentro do meu egoísmo.
Você é fruto da minha solidão.
O que me alimenta os vícios.
É o que minha inexistência rege.
A cor que tira meu coração do bege.

Te fiz meu ideal.
E de olhos fechados,
Você é tudo…

Menos real.

 

Ladrão

Blah, blah, blah.

Teus olhos vermelhos

Do fumo e do choro.

Que lamentam o desgaste,

e te tiram o decoro.

 

Te tirei a pureza,

as roupas, sapatos.

Deixei em ti o gosto de ausência na boca

e um vazio amargo.

 

Plantei em ti saudade.

E agora escrevo sincero.

Estampo em jornais

Todos os males dos meus furtos.

Todos os meus pecados carnais.

 

Do sentimento que te furtei,

fiz a minha arte.

Te roubei até as ilusões,

e deixei o que é meu a parte.

 

E eu quis no fundo das palavras,

ter sentido o infinito.

Mas sou um velho de falso pudor.

Cheio de egoísmo.

E que em teus olhos ganhou cor.

 

E eu não senti muito

A minha vida tem um vazio.

Vazio que me enche.

Um vazio de gente.

 

Falaram que eu devia viver,

sentir e amar um você.

Mas o plano é falho.

E a falha sou eu.

 

Meu coração já não é faz tempo.

Nem meu, nem teu.

Nem eu.

 

Ele partiu em uma terça-feira,

furtou-me a inebriante cegueira do apaixonado,

e tornou as histórias alheias.

Deixou-me um vazio que chamei de angústia,

E um bilhete sujo de café:

“Estou em desuso faz tempo.

Não me atrevo a dizer que volto, mas se eu voltar, até!”  

 

E foi isso,

o amor se foi,

e eu não senti muito.

Eu não senti nada.

 

Sinto muito, amor. Eu ainda não te achei na multidão.

Os casos ébrios de uma noite

só me esvaziam.

Trocaria mil deles,

pelo peito prestes a explodir sensações.

 

O sentimento que me falta

e me desgasta em palavras dos outros.

O abstrato que me abstrai,

e me condena

a viver escrevendo sobre o que nunca toquei.

 

Trago cem cigarros,

mas não te trago pra mim.

Te procuro entre os estranhos que andam na calçada,

nos ônibus lotados,

entre as linhas dos poemas,

e as faixas do cd.

Procuro sentir o que não sei descrever.

O que nunca achei sem ser em você.