o corpo flutuante

 

O telespectador despersonificado,

jaz como a matéria humana que é.

Poupado do dessabor do perecimento,

transfere aos outros,

as memórias da lucidez.

 

Estes a guardam,

com o apego da esperança.

Contagiada, faço de mim

vítima tal

desta cruel quimera.

 

No balançar da cadeira, estridente,

o corpo se move, absorto.

Ele apenas vê a beleza das cores que dançam,

pleno por não mais entendê-las.

 

 

florecer é mais difícil quando não se sabe cultivar

 

As palavras,

que combinam-se de forma violenta,

são censura ao meu estorvo.

 

Ressignifico-me na poesia,

na esperança de doer-me, enfim.

Mas apenas regresso à mácula

do gozo que comprova-se interrompido.

 

Restam-me, finalmente,

apenas vestígios,

lamúrias de escasso entusiamo.

 

Ferida que não sangra,

é senão prova de falecimento.

E o que é o frio,

senão o avesso da emoção.

 

É entendimento comum:

nada floresce em solo infértil.

no final do caminho há sempre um espelho

 

Os estalos no céu anunciavam o púbere ano.

Na embriaguez egoísta,

o verde não custou a apodrecer.

Alguns vícios, afinal, negam sua obsolência.

 

Quatro paredes a separam de um juízo,

mas a tornam refém de sua complacência.

Das escolhas passionais, ela sabia,

não se espera menos que um arrependimento.

 

dos monstros que vivem em meu quarto

 

O raio, que atravessa as frestas da janela,

recai sobre a pele daqueles que desfalecem ao meu lado.

Tão intensos, podia senti-los em meu âmago.

Por ora, frívolos, derrotados.

 

Toda alvorada é reinício, penso.

 

Contudo, o crepúsculo é iminente.

Eis que nele a ecdise se consuma.

Voltam, então, sedentos a me assombrar.

São a companhia infortuna que levo à cama

e a peleja que travo noite após noite.

 

Mas, afinal, toda alvorada é reinício, eu repito.

 

tiger