seria se fosse

 

púbere é o meu sentimento incógnito,

e intenso se faz pesar.

da indefinição fui vítima tal,

que padece no haveria-de-ser,

e que culmina no nunca-será.

egoísta, fui falso frívolo,

perdido no peito do qual me fiz algoz.

do meu próprio medo,

sou covarde-herói,

que descobriu a escuridão dos que procuram luz,

e com o choro tácito,

mais uma vez me faço jus.

 

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nado dessincronizado

 

a ideia de existir em um

revela a sombra de um querer faminto,

o sentido insaciável que procura afago por instinto.

 

o eleito do des-convicto se estreita ao âmago,

onde o toque de familiaridade lhe desperta o espírito.

dessarte, dos ramos que se desvencilham sem direção,

trêmulo segue o homem,

à mercê desse desejo que lhe dá razão.

 

no odor que perdura sobre o coxim,

o trovador se faz inteiro,

existindo na presença do outro, se deixa mostrar,

onde o amor é estar perto, sem oscilar.

 

a

 

fora de ritmo

 

Na cegueira ébria, a noite se abre oblíqua,

e o indômito coração vaga desorientado,

ensaiando a dança em pares ímpar.

Ele admira o estalo que vem dos torsos se unindo,

e do fenômeno da matéria que se transforma em energia.

 

Mas na saída da roda, ao final dos movimentos,

a música cessa, e só lhe resta o silêncio.

Naquela valsa giratória, seu corpo se faz só

entre o compasso dos pares que continuam a dançar.

 

 

 

 

o corpo flutuante

 

O telespectador despersonificado,

jaz como a matéria humana que é.

Poupado do dessabor do perecimento,

transfere aos outros,

as memórias da lucidez.

 

Estes a guardam,

com o apego da esperança.

Contagiada, faço de mim

vítima tal

desta cruel quimera.

 

No balançar da cadeira, estridente,

o corpo se move, absorto.

Ele apenas vê a beleza das cores que dançam,

pleno por não mais entendê-las.

 

 

florecer é mais difícil quando não se sabe cultivar

 

As palavras,

que combinam-se de forma violenta,

são censura ao meu estorvo.

 

Ressignifico-me na poesia,

na esperança de doer-me, enfim.

Mas apenas regresso à mácula

do gozo que comprova-se interrompido.

 

Restam-me, finalmente,

apenas vestígios,

lamúrias de escasso entusiamo.

 

Ferida que não sangra,

é senão prova de falecimento.

E o que é o frio,

senão o avesso da emoção.

 

É entendimento comum:

nada floresce em solo infértil.

no final do caminho há sempre um espelho

 

Os estalos no céu anunciavam o púbere ano.

Na embriaguez egoísta,

o verde não custou a apodrecer.

Alguns vícios, afinal, negam sua obsolência.

 

Quatro paredes a separam de um juízo,

mas a tornam refém de sua complacência.

Das escolhas passionais, ela sabia,

não se espera menos que um arrependimento.

 

dos monstros que vivem em meu quarto

 

O raio, que atravessa as frestas da janela,

recai sobre a pele daqueles que desfalecem ao meu lado.

Tão intensos, podia senti-los em meu âmago.

Por ora, frívolos, derrotados.

 

Toda alvorada é reinício, penso.

 

Contudo, o crepúsculo é iminente.

Eis que nele a ecdise se consuma.

Voltam, então, sedentos a me assombrar.

São a companhia infortuna que levo à cama

e a peleja que travo noite após noite.

 

Mas, afinal, toda alvorada é reinício, eu repito.

 

tiger